Acontece da nossa igreja se reunir onde antigamente era uma concessionária de carros. Uma das maiores da região e até hoje ponto de referência para quem se perde pros lados do Butantã, em São Paulo, perto da USP.
Domingo passado foi de festa. Tivemos o batismo de sei lá quantas pessoas, acho que umas 20. Cada uma com sua história peculiar que os levou àquele momento. E uma das pessoas disse algo que me lembrou "Maravilhosa Graça", do Philip Yancey. No livro, Philip conta de uma jovem prostituta que passa por vários problemas. Ao ouvir a sugestão de ir a uma igreja, ela respondeu: "você acha que já não me sinto mal o bastante?". Pois eu dizia que um dos testemunhos me lembrou esta passagem: a de um rapaz que disse que, por muito tempo, tentou "ser melhor", ou "ser perfeito" antes de se batizar. E então ele percebeu, frequentando as reuniões de Grupo Pequeno, que as pessoas não eram perfeitas. Que descoberta maravilhosa! Que descoberta libertadora!
E que coincidência ele dizer isso onde antes funcionava uma concessionária de automóveis. Particularmente onde hoje é o templo funcionava a oficina da concessionária. E olhando para o lugar, ouvindo o rapaz falar, me passou pela cabeça a seguinte cena esdrúxula: um vizinho sai da sua casa e vê outro vizinho com o capô aberto, motor esfumaçando. Um carro não muito novo, talvez com alguns anos de uso e carecendo de uma boa lavada. O primeiro vizinho diz para o segundo: "Meu cunhado é mecânico. Quer que eu o chame aqui para dar uma olhada no seu carro?", ao que outro responde: "Nem pensar! Meu carro está quebrado, sujo e velho. Estes mecânicos sabem tudo de carro, o que é que ele vai pensar do meu? Não, pode deixar que eu mesmo dou um jeito. Quando estiver consertado você pode chamar seu cunhado. Não vou passar esta vergonha."
Tem gente que acha que a Igreja é a concessionária. Que tem de estar limpo, lindo e aparentemente perfeito para que todos vejam, para que fique bonito na área de exposição. Quem não me conhece, que me compre.
Mas Igreja tem mais a ver com oficina do que com concessionária. O carro pode chegar lá sujo, feio, velho e quebrado. A alegria do mecânico é deixar o carro lindo, consertado, pronto pra levar o dono por mais milhares de quilômetros. Igreja tem a ver com aceitar o outro da forma como ele chega, porque aqui todo mundo precisa de conserto. Na verdade nosso estado é tão ruim que o melhor seria jogar fora e fazer outro. E Jesus faz novas todas as coisas.
E, uma vez consertado, é hora de funcionar, de desempenhar o papel, de fazer o dono feliz! Nenhum carro foi feito pra ficar dentro da oficina. Mas o que a gente vê é um monte de carro que se reúne todo domingo pra ligar os motores, fazer muito barulho e voltar pra garagem na 2a feira.
Deus nos ajude. O negócio tinha de ser FÉ EM DEUS, E PÉ NA TÁBUA!


Era hora de voltar para casa. Ela resolveu levar um pequeno bolo na bolsa para oferecer a meu pai, que certamente a encontraria agora. As pessoas a conheciam bem, era uma moça admirada e respeitada, filha de um homem temente a Deus e generoso. Por isso ela imaginava que se casaria com alguém igualmente temente a Deus e generoso.
- Casar? Que pressa é essa? – ela pensou, já impondo-se uma auto-censura. Eu nem o conheço!
Chegou em casa feliz por ter mais uma vez ajudado sua tia, mas um tanto frustrada. O que teria acontecido? Será que ele se mudou de cidade?
Enquanto as memórias das histórias contadas por meu pai passavam pela minha mente, eu era conduzido de volta à casa. Eu relutava, não queria encontrar-me com a realidade maciça e pesada que me esperava. Antes mesmo que pudéssemos nos aproximar de volta, eu e meu irmão fomos recebidos com muitos abraços pelos vizinhos que nos viram crescer. Algumas pessoas simplesmente choravam e nos apertavam contra o peito, outras nos diziam palavras de ânimo:
- Contem conosco, meninos.
- Sua mãe precisará ainda mais de vocês, continuem sendo bons meninos!
- Deus irá suprir a força que lhe falta. Tenham fé.
Ainda era difícil de acreditar no que iríamos encontrar quando o caminho se abrisse e chegássemos até a porta da casa. Eu segurava meu irmão pelo ombro e ele vinha agarrado à minha cintura. Sempre nos demos muito bem, mas era a hora de estarmos mais unidos do que nunca.
A passagem se abriu lentamente sobre olhares de pena, afagos na cabeça e tapas de encorajamento nos ombros. A visão foi inesquecível. As vizinhas, amigas de todas as horas, estavam junto à minha mãe, que chorava baixinho, talvez para nos impactar menos. Quando nos viu, seus lindos braços morenos se abriram para um abraço que significava mais do que amor. Sentimos a força que ela nos transmitiu naquele momento. Uma energia tão calorosa que, uma vez transmitida a nós, momentaneamente esgotou-se nela. Terminado o abraço, com ar cansado ela nos mirou por alguns instantes e reclinou sobre as amigas. Parecia desmaiada.
Rapidamente ela foi acudida, voltou a si e novamente nos olhou. Quando fez isso, sussurrou com a força que aos poucos recobrava:
- Meninos, mamãe ama vocês.
- Nós também amamos você, mamãe.
Por um instante o pequeno cômodo se encheu de luz. Nossa casa era pequena, não muito diferente das outras ali da nossa cidade. A construção de estuque não tinha qualquer acabamento. Meu pai era artesão tapeceiro e havia feito muitas almofadas que ornavam os cantos da sala. Nossa família sempre se reunia sobre o tapete. Nas noites quentes levávamos a sala para o lado de fora e ficávamos às vezes por hora observando a riqueza da Criação representada pelas incontáveis estrelas. Minha mãe nos contava histórias de nossa família e meu pai, de nossos antepassados. Eu não me cansava de ouvir dos tempos em que nosso reino tinha apenas um rei, das grandes lutas e conquistas que precisaram acontecer para que nosso povo se estabelecesse na terra que Deus havia prometido a Moisés. Ele era meu herói! A forma como libertou nosso povo! Os milagres, o Mar Vermelho se abrindo!
Era meu pai quem nos contava todas essas histórias. Fui trazido de volta pela voz ainda fraca de mamãe.
- Ei, querido, está prestando atenção no que mamãe está lhe dizendo?
- Claro, mamãe. Já disse que também te amo.
- Ah, meu querido sonhador! Sua cabeça provavelmente estava em outro lugar, como sempre. Agora, ouça bem. Teremos dias difíceis pela frente. Eu vou precisar de toda a ajuda que vocês puderem me dar. Isso é tão novo para mim quanto é para vocês. Vamos viver isso juntos, pela primeira vez na vida, eu e vocês.
Enquanto somos crianças, temos a certeza de que nossos pais sabem de tudo, não é mesmo? Parece que nada os surpreende. Eles estão sempre muitos passos à nossa frente. Por isso é que as palavras da mamãe me impressionaram tanto. Como assim, ela não sabe o que fazer? Ela é nossa mãe! Ela tem de saber! Mas eu não respondi. Apenas cheguei novamente perto dela e a abracei.
De repente a tristeza começou novamente a aumentar, a apertar o peito, a nos esmagar até que a primeira lágrima brotasse. Uma vez que ela veio à tona, as outras simplesmente jorraram. Eu, meu irmão e minha mãe nos agarramos e novamente choramos profundamente por alguns minutos sob os olhares compadecidos de nossos amigos.
Hoje nossa história faz uma pausa para um pedido muito especial.
Meu pastor e amigo Alexandre Tempel foi diagnosticado com um tumor no estômago. Orem por ele, pela família e pelo tratamento.
Muito obrigado,
Ivan

- Eu te ajudo. Sua casa é longe?
- Já não era sem tempo. Minha casa fica ali mais no alto.
Enquanto ele pegava o balde como quem pega um saco de vento, ela recobrava o fôlego, admirando sua força e presteza, mas sem deixar que isso transparecesse. Ela sabia que muito provavelmente seu pai, rigoroso, iria se opor a algo mais do que uma sincera amizade entre dois jovens.
Ela mesma ainda não estava segura do que sentia. Talvez a insistência dele fosse o que a deixasse assim, não tinha certeza de que havia qualquer sentimento mais forte.
No dia seguinte ela saiu de casa para visitar sua tia, como fazia costumeiramente às quartas-feiras. Só que ela se preparou de modo especial. Colocou um vestido mais bonito, penteou bem os cabelos e percebeu que seu coração palpitava mais forte só de imaginar onde o insistente pretendente a saudaria naquela manhã. Ele sempre arranjava um jeito de encontrá-la pelo caminho, lembram? Parece que ficava de tocaia, esperando que ela esquecesse que ele iria aparecer para poder surpreendê-la com a saudação.
Hoje seria diferente, ela estaria preparada para ele. Com um beijo cúmplice despediu-se de sua mãe, que percebeu no olhar e no sorriso da filha algo diferente. Já do pai, despediu-se comedida, num beija-mão respeitoso em busca de sua bênção. Colocou-se a caminho da casa da tia. Não mais do que quinze minutos de caminhada separavam as duas casa, de forma que ela ficou torcendo para que ele aparecesse logo, assim teriam um pouco mais de tempo juntos caso ele quisesse acompanhá-la até o destino.
Para sua surpresa, ele não apareceu. Nem de longe ela o viu. A certa altura já nem mesmo disfarçava estar procurando por ele. Ao chegar perto da casa da tia, resolveu ainda mudar o percurso e esticá-lo em mais alguns minutos, alimentando uma esperança que não se concretizou.
- Onde será que ele se meteu? ela pensou, já batendo à porta da tia.
- Bom dia, querida. Como você está linda hoje! – saudou-a uma amável tia que, viúva e sem filhos, dependia da generosidade dos parentes para seguir sua vida. Era, entretanto, uma pessoa feliz, que sabia viver bem com aquilo que tinha. Uma mulher forte e cheia de energia, que inspirava muitas pessoas com seu modo de enfrentar dificuldades.
- Muito obrigada, tia. – respondeu ela, saudando-a com um abraço carinhoso. Olha o que eu trouxe para você hoje. Acho que podemos cozinhar uns bolos deliciosos. O que acha?
Enquanto a tia a ajudava a recolher os ingredientes, ela ainda espiou pela janela para ver se, ao menos de relance, podia identificar meu pai de tocaia lá fora. Mas isso também não aconteceu.
Era hora de voltar para casa. Ela resolveu levar um pequeno bolo na bolsa para oferecer a meu pai, que certamente a encontraria agora. As pessoas a conheciam bem, era uma moça admirada e respeitada, filha de um homem temente a Deus e generoso. Por isso ela imaginava que se casaria com alguém igualmente temente a Deus e generoso.
- Casar? Que pressa é essa? – ela pensou, já impondo-se uma auto-censura. Eu nem o conheço!
Chegou em casa feliz por ter mais uma vez ajudado sua tia, mas um tanto frustrada. O que teria acontecido? Será que ele se mudou de cidade?

Um de nossos vizinhos assistiu compadecido à cena. Quando percebeu que havíamos chorado bastante por aquele momento, aproximou-se de nós e também nos abraçou. Ele havia estado ali todo o tempo, mas nós estávamos ocupados demais com nossas lágrimas para enxergar quem quer que fosse.
Meu pai era um homem querido. Mas não havia sido sempre assim, segundo ouvimos dizer. Houve uma época em que ele era rude, um tipo de poucos amigos que não se importava muito com os outros e vivia para si. Minha mãe contou algumas vezes que quando conheceu meu pai, ele a abordou de uma forma nada convencional. Ela passava pela rua quando ele, encantado e ousado – na versão dela – e despretensioso – na versão dele – a viu e saudou:
- Bom dia, moça.
Moça de família não falava com estranhos na rua, ainda mais com estranhos jovens, solteiros e cheios de segundas intenções. Ela seguiu seu caminho olhando fixamente para frente e levemente inclinando a cabeça para cima, com certo ar de superioridade. A reação dele desmontou-a por dentro:
- Humpf! Além de feia é orgulhosa!
Aquilo a atingiu em cheio! Uma covardia, um ataque pelas costas! Tão forte que ela quase tropeçou. Chegou a dar-se um pequeno tranco. Pensava:
- Sujeito abusado! Quem ele pensa que é?
Sua educação e timidez não permitiram que ela desse uma resposta. Seguiu seu caminho enquanto aquelas palavras rudes lhe ecoavam e se tornavam cada vez mais simpáticas e engraçadas. Como alguém poderia ter falado isso dela?
Seus caminhos continuaram se cruzando na pequena vila. “Acidentalmente” viam-se quase todos os dias porque ele sempre dava um jeito de estar por onde ela passasse. Ele queria saber mais sobre ela e aos poucos a recíproca passava a ser verdadeira. Certa tarde enquanto ela voltava de apanhar água no poço, ele a cumprimentou como de costume. E, como de costume, esperava não ter resposta. Mas foi surpreendido.
- Boa tarde, moça.
- A tarde seria boa... se houvesse alguém para me ajudar... a levar este balde... de água até minha casa, ela retrucou meio ofegante pelo peso que levava ladeira acima.
- Eu te ajudo. Sua casa é longe?
- Já não era sem tempo. Minha casa fica ali mais no alto.

"Se alguém quer vir após mim, meu nick no Twitter é ivanoliveira71. 
As duas heranças - 2a parte
Foi nessa hora que meu irmão menor chegou. Eu o agarrei pelo braço e o tirei daquela balbúrdia. Ele começou a chorar e a me perguntar o que estava acontecendo, o que havia acontecido com papai. Nos meus primeiros minutos como homem da casa eu segurei a tristeza e a confusão, olhei bem dentro dos olhos dele e disse:
- Deus está cuidando de nós. Ele não vai nos abandonar.
Ele tentou correr para casa, mas eu o agarrei pela manga da camisa de linho grosso e puxei de volta. O puxão o assustou ainda mais. Ele caiu, olhou para mim e chorou. No meio do seu choro, me perguntou:
- Se Ele está cuidando de nós, por que deixou acontecer uma coisa ruim com o papai. Foi com o papai, não é? Aquelas pessoas estão na nossa casa por causa do papai, não estão?
- Não. Eles estão lá por causa da mamãe. E por nossa causa. Porque gostam de nós e querem nos ajudar. Queriam ajudar a trazer o papai de volta, mas nem eles podem fazer isso. Eu também queria que eles tivessem conseguido.
Nessa hora eu não consegui me segurar mais. Abracei forte meu irmãozinho e começamos a chorar juntos. Por muito tempo ficamos ali abraçados, chorando. As imagens de papai brincando com a gente, nos levando para passear, abraçando a mamãe passavam pela nossa cabeça como um filme interminável, que voltava sempre ao começo. As memórias não paravam. E quanto mais pensávamos que elas eram agora tudo o que tínhamos do nosso pai, mais queríamos lembrar outras coisas. Foi um longo abraço de conforto, de apoio, um longo abraço que nos lembrava que agora éramos só nós e a mamãe.
Um de nossos vizinhos assistiu compadecido à cena. Quando percebeu que havíamos chorado bastante por aquele momento, aproximou-se de nós e também nos abraçou. Ele havia estado ali todo o tempo, mas nós estávamos ocupados demais com nossas lágrimas para enxergar quem quer que fosse perto de nós.
(cont no próximo post)
Ler é uma dádiva. Quando me lembro da quantidade de gente que mal consegue juntar as letras do próprio nome, agradeço a Deus a capacidade não só de juntar as letras, mas de tirar algum sentido do que leio.
Existem histórias que fazem com que a gente se sinta lá, vivo no meio dela. Quando leio certos trechos descritivos da Bíblia gosto de me imaginar no lugar de algum dos personagens, ou como um observador presente, porém invisível. E foi assim quando, há algumas semanas, me deparei com o trecho inicial de II Reis 4. Muita gente conhece este trecho como o do "milagre do azeite". Mas o papel que o azeite desempenha é o de mero instrumento da provisão de Deus para algo muito maior. Ele surge como resposta a duas perguntas, ambas muito cheias de significado:
- Como posso lhe ajudar?
- O que é que você tem em casa?
À segunda pergunta, uma resposta pronta saltou da boca daquela viúva. Não foi bem uma resposta pronta, mas uma resposta que havia sido aprontada, uma resposta que vinha sendo alimentada pela tristeza da perda. Uma resposta curta e contundente:
- Nada.
Essa história é sobre nada e o que ele significa. É uma história que, se estivéssemos lá, talvez a víssemos acontecendo assim:
"Duas heranças", por Ivan Oliveira. Baseada em fatos reais.
- Meu filho, acode aqui que teu pai está passando mal! Corre, filho!
Aquela talvez tenha sido a cena mais chocante da minha infância. Eu tinha somente 12 anos quando minha mãe, com os olhos em lágrimas e o corpo desfalecido do meu pai nos braços, olhou para mim pedindo socorro. Eu era o homem da casa naquele instante. E continuaria a ser dali em diante.
- Chame um dos vizinhos! Corre, filho, corre. Corre...
Eu saí correndo sem saber exatamente para onde. Assim que cheguei à rua dei um esbarrão num homem muito bem vestido. Perguntei a ele onde conseguir ajuda, mas ele me ignorou, seguiu seu caminho. Eu continuei correndo até chegar à casa da vizinha mais próxima. Perguntei por seu marido ou se alguém podia ajudar. Ela viu nos meus olhos assustados que algo não estava bem. Chamou o marido e, no caminho, mais alguns vizinhos. Chegando de volta à minha casa, minha mãe soluçava e batia no corpo inerte de meu pai, tentando fazê-lo voltar.
Foi nessa hora que meu irmão menor chegou. Eu o agarrei pelo braço e o tirei daquela confusão. Ele começou a chorar e a me perguntar o que estava acontecendo, o que havia acontecido com papai. Nos meus primeiros minutos como homem da casa eu segurei a tristeza e a confusão, olhei bem dentro dos olhos dele e disse:
- Deus está cuidando de nós. Ele não vai nos abandonar.
[continua nos próximos posts]

Notícias de mortes bárbaras não faltam. Não é preciso buscá-las, elas saltam do centro da página de abertura dos portais da internet, da mesma forma como já o faziam dos jornais sensacionalistas e, dependendo do caso, até dos periódicos tidos como mais “sérios”.
Por essa razão é que notícias desse tipo só se tornam realmente “notícia” se o caso for muito grave. E a gravidade precisa aumentar para que o próximo fato seja digno de estampar a tela do seu computador. A gente se acostuma ao horror.
A menos de eu ter citado o computador e a internet, os dois primeiros parágrafos poderiam ter sido escritos em qualquer época. A violência, a crueldade, a barbárie sempre estiveram por aí, desde o assassinato de Abel descrito logo no início da Bíblia. Mas o ponto aqui não é a abundância de notícias sobre violência e a banalidade de como são trazidas à superfície, para logo serem esquecidas. Quero falar das notícias que ainda nos chocam.
Esta semana eu fiquei estarrecido. Perdi o sono para falar a verdade. Sonhei com isso. A notícia da família que foi esquartejada em João Pessoa pela família vizinha por conta de uma briga de crianças. Dizem as reportagens que pai, mãe grávida de gêmeos e 3 filhos foram mortos a facadas por um casal de vizinhos porque seus filhos brigaram na rua. Já fiquei chocado ao ler a notícia, mas quando vi na TV que as facas que utilizaram foram aqueles facões de cortar cana, tive a certeza de ter estar ouvido falar de uma daquelas guerras tribais que a gente vê nos filmes e notícias sobre a África. Imaginem o horror de ter sua casa invadida por loucos empunhando facões. Duas das crianças escaparam com vida – um garoto de 7 anos que ainda está na UTI e uma garota que se escondeu debaixo da cama. Foi ela quem me tirou o sono. Ela ouviu os gritos, o barulho dos facões sendo encravados na carne de seus pais e irmãos. Ela viu o sangue escorrendo, os membros amputados, a mãe agonizante – que veio a falecer no hospital. Imaginar a cena me embrulha o estômago.
Numa hora dessas muita gente se pergunta onde está Deus. Tem gente que ainda se pergunta onde está Deus. Deus?! Eu me pergunto onde está a Igreja!! Deus nos deu a ordem de ir e fazer discípulos, de transformar o mundo, de pregar a boa mensagem de Jesus. Deus mandou o próprio Jesus, que foi martirizado de forma cruel para que entendêssemos a mensagem! Para que nos reconciliássemos com Ele, para que Seu Reino e Sua Justiça fossem estabelecidos na Terra. Mas eu tenho certeza de que há crentes que se perguntam onde está Deus. Ele prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Seu corpo é a Igreja. Onde está Deus? Onde deveria estar, soberano no controle de todas as coisas, sendo adorado por aqueles que o buscam de verdade. A pergunta deveria ser: onde está a Igreja?
A Igreja está aqui. Escondida atrás da tela de um computador, lendo a notícia e ficando chocada. A Igreja está escrevendo este post para sentir que está fazendo algo. A Igreja está preocupada com a iluminação para o coral no culto de domingo. A Igreja está desligando a TV e fechando o navegador porque chega de tanta notícia ruim. A Igreja está falhando. E Deus, em sua infinita graça e misericórdia, insiste em nos dar a tarefa de mudar o mundo. Ele nos oferece a melhor garantia que qualquer um poderia nos dar para cumprir a tarefa: a de que não estamos sozinhos. Eis que estou convosco. Mas é hora de fechar o navegador.


Tem gente como eu, que cresceu na igreja. Tem gente que, em determinado momento da vida, se achou na igreja.
A igreja é um local são. Os cristãos que se deixam usar por Deus são as pessoas que realmente podem fazer diferença neste mundo.
Mas o que acontece quando cristãos sinceros estão sob a influência de "pastores", "bispos" e "apóstolos" que acham que podem controlar a vida de seus seguidores? Gente sem escrúpulo e sem caráter, que não mede esforços e não tem sensibilidade diante da necessidade do outro? Gente que acha que merece mais atenção do que Deus?
Já ouvi muitas histórias tristes, de gente que abandonou a fé por conta de líderes assim. Mas Marília de Camargo César teve a coragem de escrever sobre isso em seu livro "Feridos em Nome de Deus", uma leitura que recomendo principalmente a pastores e líderes sãos, aqueles que querem evitar trilhar o caminho do que há muito tempo Caio Fabio chamou de "A Síndrome de Lucifer".
Estou num momento de questionamento. Quanto mais tenho contato ou ouço falar de líderes eclesiásticos, mais me pergunto o porquê da igreja existir nos moldes como a conhecemos hoje. Aliás, foi um questionamento parecido que motivou alguns irmãos da igreja Willow Creek nos EUA a fazer uma profunda pesquisa com seus membros para descobrir, afinal, se a igreja de fato estava ajudando as pessoas a crescer em seus relacionamentos com Deus e no amor ao próximo. O resultado foi, para eles, muito impactante. Eles achavam que faziam tudo certo, até verem o resultado da pesquisa. É outro livro que recomendo a pastores e líderes. Com todas as ressalvas que se possam fazer pelo fato do público norte-americano ser diferente de nós, algumas das descobertas são relevantes e aplicáveis ao contexto brasileiro.
Minha oração é que a liderança eclesiástica brasileira pare de fazer as coisas em nome de Deus e permita que Ele próprio realize tanto o querer como o efetuar.
Comentários, please!
A surpreendente notícia da morte de Zé Rodrix na sexta-feira passada coincidiu na minha vida com o fim da leitura do não menos surpreendente "A Cabana", de William P. Young.
"A Cabana" não sabe o quanto tem em comum com "A Casa no Campo" do Zé Rodrix. E, até onde sei, infelizmente o Zé Rodix nunca encontrou sua Cabana.
Se você já leu o livro vai entender o poder quase "profético" que há nestas palavras:
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais
Se você ainda não leu o livro, eu o recomendo com a força de quem imagina que sua opinião tem alguma valia.
Eu quero uma Casa no Campo. Uma Casa que seja como a Cabana, com meus verdadeiros amigos do peito. A sua Cabana ou sua Casa no Campo pode ser o seu quarto, pode ser a pausa que você dá ao seu dia agitado. Sua cabana é o local secreto em que o Divino encontra o Humano para uma comunhão completa e indescritível.
À família enlutada do Zé Rodrix deixo minhas orações para que Deus os console, encoraje e se revele. A Casa está à espera de cada um.


Eu juro que tentei. No início dei aquele gás e consegui postar quase uma vez por dia. De repente parece que o pique acaba, a vontade de mudar já não é tão grande em face dos resultados pouco percebidos e a gente é tentado, se não a parar, a ir diminuindo o ritmo. Diminui, diminui, di mi nui... até parar.
Quebrar o ritmo é o que estraga tudo. O lapso é o maior inimigo da disciplina. Já há quase 3 semanas que não posto nada!
Mas uma conversa aqui, um estímulo ali e a gente começa a se inspirar novamente. E sabe o quê? Tem disciplina que é que nem filho: você está todo dia ali com ele, mas não percebe que ele cresce. Até que pega as fotos de 3 meses atrás e se admira: "puxa, esse bichinho cresceu!".
As minhas pílulas diárias precisam voltar. Mas não é um "precisam" de obrigação. É um "precisam" de necessidade. Não aguento ficar sem escrever!
Se alguém vai ler... isso nem me preocupa. Porque isso aqui é a portinha escondida para a minha mente. Se alguém a descobrir e achar algo que faça diferença para si, fique à vontade.
Outros lapsos virão. Mas eu volto. Juro que sim.

Hoje meu pai estaria completando 73 anos.
Fica aqui minha homenagem de uma forma que sei que ele curtiria: com boa música.
Com Andy McKee, "For my Father"
Uma vez eu assisti a uma palestra em que o cara cunhou uma expressão da qual nunca esqueci, mas que também nunca mais ouvi falar. "E-pace". "Pace" em inglês é passo, ritmo. Quando tem algum acidente ou algum risco na Fórmula 1, por exemplo, entra o "Pace Car" (que eu não sei porque é traduzido como carro-madrinha), que dita o ritmo da corrida. Nenhum outro carro pode ir mais rápido que o pace car.
Pois bem, o "e-pace" é o ritmo das coisas na era do e-. Do e-mail, do e-banking, do e-commerce e assim por diante. O e- vem de "electronic". Ou seja, o e-pace é o ritmo em que as coisas acontecem na era eletrônica. O tal palestrante dizia que a nossa sociedade não iria resistir a este ritmo insano, e que haveria, mais cedo ou mais tarde, um colapso geral. As pessoas simplesmente iriam "perder o passo" e a mudernidaadji ia atropelar todo mundo.
Bem, não sei vocês. Eu já fui atropelado faz teeeempo. Já faz muito tempo em que eu era um cara em dia com as últimas tecnologias. Hoje, quando aparece a discussão em torno do Ashton Kutcher ter 1 milhão de seguidores no Twitter, eu fico... "Hã?! Twitter? Seguidores?!"... um completo "por fora". E, pra piorar o espanto, vem a tal da Susan Boyle. A mulher era uma desconhecida que, em alguns dias, teve seu video no YouTube visto mais de 20 milhões de vezes. Só eu vi umas quatro... rs. Todo mundo fala da mulher! Tá certo que ela tem uma voz e tanto, mas peraí!!! A mulher virou hit instantâneo. E quem disse que a cara dela não ajuda? Foi isso que fez o sucesso ser maior!! Quando o Andy Warhol falou que "no futuro" as pessoas iriam ser famosas por 15 minutos, acho que ele nunca imaginou que as pessoas passariam a ser famosas em 15 minutos.
E, no meio dessa correria toda, eu me pergunto se as pessoas sabem porque estão correndo tanto. Qual é o verdadeiro sentido escondido por trás desta vontade desenfreada de chegar 'lá'?


Gostei dessa história de escrever um pouquinho a cada dia. Como não quero ficar misturando post em inglês com post em português, decidi criar um outro blog. Ele não é a tradução deste aqui. Pode até ser que trate de outros assuntos, ainda não sei. Acho que vale a pena dar uma olhadinha por lá: http://floor712.blogspot.com
Por aqui vou tentar continuar a blogar todos os dias. Vamos ver se consigo.
Grande abraço!

Tomar decisões nem sempre é fácil. Foi isso que eu disse em "Caminhada", um post da semana passada.
Mas tão duro quanto tomar decisões é comunicá-las. Porque muitas envolvem outras pessoas, gente com quem a gente se liga, se compromete. Gente de quem a gente aprende a gostar e, de repente, tem de decepcionar, ou frustrar.
Eu espero que nos momentos em que eu precisar fazer isso, haja crescimento. Que eu possa amadurecer ao tomar e comunicar decisões difíceis. Que eu aprenda a fazer isso sem criar rancores nem mágoas, mas entendendo o processo com o qual Deus trabalha. Às vezes teremos que caminhar num rumo diferente do plano que traçamos, com o qual sonhamos e pelo qual até já nos sacrificamos.
Isso também é viver.

|
||
![]() | ||
![]() | ||
![]() | ||
|
||