Eis que estou convosco

Notícias de mortes bárbaras não faltam. Não é preciso buscá-las, elas saltam do centro da página de abertura dos portais da internet, da mesma forma como já o faziam dos jornais sensacionalistas e, dependendo do caso, até dos periódicos tidos como mais “sérios”.

Por essa razão é que notícias desse tipo só se tornam realmente “notícia” se o caso for muito grave. E a gravidade precisa aumentar para que o próximo fato seja digno de estampar a tela do seu computador. A gente se acostuma ao horror.

A menos de eu ter citado o computador e a internet, os dois primeiros parágrafos poderiam ter sido escritos em qualquer época. A violência, a crueldade, a barbárie sempre estiveram por aí, desde o assassinato de Abel descrito logo no início da Bíblia. Mas o ponto aqui não é a abundância de notícias sobre violência e a banalidade de como são trazidas à superfície, para logo serem esquecidas. Quero falar das notícias que ainda nos chocam.

Esta semana eu fiquei estarrecido. Perdi o sono para falar a verdade. Sonhei com isso. A notícia da família que foi esquartejada em João Pessoa pela família vizinha por conta de uma briga de crianças. Dizem as reportagens que pai, mãe grávida de gêmeos e 3 filhos foram mortos a facadas por um casal de vizinhos porque seus filhos brigaram na rua. Já fiquei chocado ao ler a notícia, mas quando vi na TV que as facas que utilizaram foram aqueles facões de cortar cana, tive a certeza de ter estar ouvido falar de uma daquelas guerras tribais que a gente vê nos filmes e notícias sobre a África. Imaginem o horror de ter sua casa invadida por loucos empunhando facões. Duas das crianças escaparam com vida – um garoto de 7 anos que ainda está na UTI e uma garota que se escondeu debaixo da cama. Foi ela quem me tirou o sono. Ela ouviu os gritos, o barulho dos facões sendo encravados na carne de seus pais e irmãos. Ela viu o sangue escorrendo, os membros amputados, a mãe agonizante – que veio a falecer no hospital. Imaginar a cena me embrulha o estômago.

Numa hora dessas muita gente se pergunta onde está Deus. Tem gente que ainda se pergunta onde está Deus. Deus?! Eu me pergunto onde está a Igreja!! Deus nos deu a ordem de ir e fazer discípulos, de transformar o mundo, de pregar a boa mensagem de Jesus. Deus mandou o próprio Jesus, que foi martirizado de forma cruel para que entendêssemos a mensagem! Para que nos reconciliássemos com Ele, para que Seu Reino e Sua Justiça fossem estabelecidos na Terra. Mas eu tenho certeza de que há crentes que se perguntam onde está Deus. Ele prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Seu corpo é a Igreja. Onde está Deus? Onde deveria estar, soberano no controle de todas as coisas, sendo adorado por aqueles que o buscam de verdade. A pergunta deveria ser: onde está a Igreja?

A Igreja está aqui. Escondida atrás da tela de um computador, lendo a notícia e ficando chocada. A Igreja está escrevendo este post para sentir que está fazendo algo. A Igreja está preocupada com a iluminação para o coral no culto de domingo. A Igreja está desligando a TV e fechando o navegador porque chega de tanta notícia ruim. A Igreja está falhando. E Deus, em sua infinita graça e misericórdia, insiste em nos dar a tarefa de mudar o mundo. Ele nos oferece a melhor garantia que qualquer um poderia nos dar para cumprir a tarefa: a de que não estamos sozinhos. Eis que estou convosco. Mas é hora de fechar o navegador.

   

 

Em Nome de Deus

 

Tem gente como eu, que cresceu na igreja. Tem gente que, em determinado momento da vida, se achou na igreja.

A igreja é um local são. Os cristãos que se deixam usar por Deus são as pessoas que realmente podem fazer diferença neste mundo.

Mas o que acontece quando cristãos sinceros estão sob a influência de "pastores", "bispos" e "apóstolos" que acham que podem controlar a vida de seus seguidores? Gente sem escrúpulo e sem caráter, que não mede esforços e não tem sensibilidade diante da necessidade do outro? Gente que acha que merece mais atenção do que Deus?

Já ouvi muitas histórias tristes, de gente que abandonou a fé por conta de líderes assim. Mas Marília de Camargo César teve a coragem de escrever sobre isso em seu livro "Feridos em Nome de Deus", uma leitura que recomendo principalmente a pastores e líderes sãos, aqueles que querem evitar trilhar o caminho do que há muito tempo Caio Fabio chamou de "A Síndrome de Lucifer".

Estou num momento de questionamento. Quanto mais tenho contato ou ouço falar de líderes eclesiásticos, mais me pergunto o porquê da igreja existir nos moldes como a conhecemos hoje. Aliás, foi um questionamento parecido que motivou alguns irmãos da igreja Willow Creek nos EUA a fazer uma profunda pesquisa com seus membros para descobrir, afinal, se a igreja de fato estava ajudando as pessoas a crescer em seus relacionamentos com Deus e no amor ao próximo. O resultado foi, para eles, muito impactante. Eles achavam que faziam tudo certo, até verem o resultado da pesquisa. É outro livro que recomendo a pastores e líderes. Com todas as ressalvas que se possam fazer pelo fato do público norte-americano ser diferente de nós, algumas das descobertas são relevantes e aplicáveis ao contexto brasileiro.

Minha oração é que a liderança eclesiástica brasileira pare de fazer as coisas em nome de Deus e permita que Ele próprio realize tanto o querer como o efetuar.

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