Episódio de Hoje: Pais sabem tudo

                  Era hora de voltar para casa. Ela resolveu levar um pequeno bolo na bolsa para oferecer a meu pai, que certamente a encontraria agora. As pessoas a conheciam bem, era uma moça admirada e respeitada, filha de um homem temente a Deus e generoso. Por isso ela imaginava que se casaria com alguém igualmente temente a Deus e generoso.

                - Casar? Que pressa é essa? – ela pensou, já impondo-se uma auto-censura. Eu nem o conheço!

                Chegou em casa feliz por ter mais uma vez ajudado sua tia, mas um tanto frustrada. O que teria acontecido? Será que ele se mudou de cidade?

                Enquanto as memórias das histórias contadas por meu pai passavam pela minha mente, eu era conduzido de volta à casa. Eu relutava, não queria encontrar-me com a realidade maciça e pesada que me esperava. Antes mesmo que pudéssemos nos aproximar de volta, eu e meu irmão fomos recebidos com muitos abraços pelos vizinhos que nos viram crescer. Algumas pessoas simplesmente choravam e nos apertavam contra o peito, outras nos diziam palavras de ânimo:

                - Contem conosco, meninos.

                - Sua mãe precisará ainda mais de vocês, continuem sendo bons meninos!

                - Deus irá suprir a força que lhe falta. Tenham fé.

                Ainda era difícil de acreditar no que iríamos encontrar quando o caminho se abrisse e chegássemos até a porta da casa. Eu segurava meu irmão pelo ombro e ele vinha agarrado à minha cintura. Sempre nos demos muito bem, mas era a hora de estarmos mais unidos do que nunca.

                A passagem se abriu lentamente sobre olhares de pena, afagos na cabeça e tapas de encorajamento nos ombros. A visão foi inesquecível. As vizinhas, amigas de todas as horas, estavam junto à minha mãe, que chorava baixinho, talvez para nos impactar menos. Quando nos viu, seus lindos braços morenos se abriram para um abraço que significava mais do que amor. Sentimos a força que ela nos transmitiu naquele momento. Uma energia tão calorosa que, uma vez transmitida a nós, momentaneamente esgotou-se nela. Terminado o abraço, com ar cansado ela nos mirou por alguns instantes e reclinou sobre as amigas. Parecia desmaiada.

                Rapidamente ela foi acudida, voltou a si e novamente nos olhou. Quando fez isso, sussurrou com a força que aos poucos recobrava:

                - Meninos, mamãe ama vocês.

                - Nós também amamos você, mamãe.

                Por um instante o pequeno cômodo se encheu de luz. Nossa casa era pequena, não muito diferente das outras ali da nossa cidade. A construção de estuque não tinha qualquer acabamento. Meu pai era artesão tapeceiro e havia feito muitas almofadas que ornavam os cantos da sala. Nossa família sempre se reunia sobre o tapete. Nas noites quentes levávamos a sala para o lado de fora e ficávamos às vezes por hora observando a riqueza da Criação representada pelas incontáveis estrelas. Minha mãe nos contava histórias de nossa família e meu pai, de nossos antepassados. Eu não me cansava de ouvir dos tempos em que nosso reino tinha apenas um rei, das grandes lutas e conquistas que precisaram acontecer para que nosso povo se estabelecesse na terra que Deus havia prometido a Moisés. Ele era meu herói! A forma como libertou nosso povo! Os milagres, o Mar Vermelho se abrindo!

                Era meu pai quem nos contava todas essas histórias. Fui trazido de volta pela voz ainda fraca de mamãe.

                - Ei, querido, está prestando atenção no que mamãe está lhe dizendo?

                - Claro, mamãe. Já disse que também te amo.

                - Ah, meu querido sonhador! Sua cabeça provavelmente estava em outro lugar, como sempre. Agora, ouça bem. Teremos dias difíceis pela frente. Eu vou precisar de toda a ajuda que vocês puderem me dar. Isso é tão novo para mim quanto é para vocês. Vamos viver isso juntos, pela primeira vez na vida, eu e vocês.

                Enquanto somos crianças, temos a certeza de que nossos pais sabem de tudo, não é mesmo? Parece que nada os surpreende. Eles estão sempre muitos passos à nossa frente. Por isso é que as palavras da mamãe me impressionaram tanto. Como assim, ela não sabe o que fazer? Ela é nossa mãe! Ela tem de saber! Mas eu não respondi. Apenas cheguei novamente perto dela e a abracei.

                De repente a tristeza começou novamente a aumentar, a apertar o peito, a nos esmagar até que a primeira lágrima brotasse. Uma vez que ela veio à tona, as outras simplesmente jorraram. Eu, meu irmão e minha mãe nos agarramos e novamente choramos profundamente por alguns minutos sob os olhares compadecidos de nossos amigos.


Pedido de Oração

Hoje nossa história faz uma pausa para um pedido muito especial.

Meu pastor e amigo Alexandre Tempel foi diagnosticado com um tumor no estômago. Orem por ele, pela família e pelo tratamento.

Muito obrigado,

Ivan

Episódio de hoje: bolo de milho

 

                - Eu te ajudo. Sua casa é longe?

                - Já não era sem tempo. Minha casa fica ali mais no alto.

                Enquanto ele pegava o balde como quem pega um saco de vento, ela recobrava o fôlego, admirando sua força e presteza, mas sem deixar que isso transparecesse. Ela sabia que muito provavelmente seu pai, rigoroso, iria se opor a algo mais do que uma sincera amizade entre dois jovens.

                Ela mesma ainda não estava segura do que sentia. Talvez a insistência dele fosse o que a deixasse assim, não tinha certeza de que havia qualquer sentimento mais forte.

                No dia seguinte ela saiu de casa para visitar sua tia, como fazia costumeiramente às quartas-feiras. Só que ela se preparou de modo especial. Colocou um vestido mais bonito, penteou bem os cabelos e percebeu que seu coração palpitava mais forte só de imaginar onde o insistente pretendente a saudaria naquela manhã. Ele sempre arranjava um jeito de encontrá-la pelo caminho, lembram? Parece que ficava de tocaia, esperando que ela esquecesse que ele iria aparecer para poder surpreendê-la com a saudação.

                Hoje seria diferente, ela estaria preparada para ele. Com um beijo cúmplice despediu-se de sua mãe, que percebeu no olhar e no sorriso da filha algo diferente. Já do pai, despediu-se comedida, num beija-mão respeitoso em busca de sua bênção. Colocou-se a caminho da casa da tia. Não mais do que quinze minutos de caminhada separavam as duas casa, de forma que ela ficou torcendo para que ele aparecesse logo, assim teriam um pouco mais de tempo juntos caso ele quisesse acompanhá-la até o destino.

                Para sua surpresa, ele não apareceu. Nem de longe ela o viu. A certa altura já nem mesmo disfarçava estar procurando por ele. Ao chegar perto da casa da tia, resolveu ainda mudar o percurso e esticá-lo em mais alguns minutos, alimentando uma esperança que não se concretizou.

                - Onde será que ele se meteu? ­ela pensou, já batendo à porta da tia.

                - Bom dia, querida. Como você está linda hoje! – saudou-a uma amável tia que, viúva e sem filhos, dependia da generosidade dos parentes para seguir sua vida. Era, entretanto, uma pessoa feliz, que sabia viver bem com aquilo que tinha. Uma mulher forte e cheia de energia, que inspirava muitas pessoas com seu modo de enfrentar dificuldades.

                - Muito obrigada, tia. ­– respondeu ela, saudando-a com um abraço carinhoso. Olha o que eu trouxe para você hoje. Acho que podemos cozinhar uns bolos deliciosos. O que acha?

                Enquanto a tia a ajudava a recolher os ingredientes, ela ainda espiou pela janela para ver se, ao menos de relance, podia identificar meu pai de tocaia lá fora. Mas isso também não aconteceu.

                Era hora de voltar para casa. Ela resolveu levar um pequeno bolo na bolsa para oferecer a meu pai, que certamente a encontraria agora. As pessoas a conheciam bem, era uma moça admirada e respeitada, filha de um homem temente a Deus e generoso. Por isso ela imaginava que se casaria com alguém igualmente temente a Deus e generoso.

                - Casar? Que pressa é essa? – ela pensou, já impondo-se uma auto-censura. Eu nem o conheço!

 

                Chegou em casa feliz por ter mais uma vez ajudado sua tia, mas um tanto frustrada. O que teria acontecido? Será que ele se mudou de cidade?


A história segue

 

Um de nossos vizinhos assistiu compadecido à cena. Quando percebeu que havíamos chorado bastante por aquele momento, aproximou-se de nós e também nos abraçou. Ele havia estado ali todo o tempo, mas nós estávamos ocupados demais com nossas lágrimas para enxergar quem quer que fosse.

                Meu pai era um homem querido. Mas não havia sido sempre assim, segundo ouvimos dizer. Houve uma época em que ele era rude, um tipo de poucos amigos que não se importava muito com os outros e vivia para si. Minha mãe contou algumas vezes que quando conheceu meu pai, ele a abordou de uma forma nada convencional. Ela passava pela rua quando ele, encantado e ousado – na versão dela – e despretensioso – na versão dele – a viu e saudou:

                - Bom dia, moça.

                Moça de família não falava com estranhos na rua, ainda mais com estranhos jovens, solteiros e cheios de segundas intenções. Ela seguiu seu caminho olhando fixamente para frente e levemente inclinando a cabeça para cima, com certo ar de superioridade.  A reação dele desmontou-a por dentro:

                - Humpf! Além de feia é orgulhosa!

                Aquilo a atingiu em cheio! Uma covardia, um ataque pelas costas! Tão forte que ela quase tropeçou. Chegou a dar-se um pequeno tranco. Pensava:

                - Sujeito abusado! Quem ele pensa que é?

                Sua educação e timidez não permitiram que ela desse uma resposta. Seguiu seu caminho enquanto aquelas palavras rudes lhe ecoavam e se tornavam cada vez mais simpáticas e engraçadas. Como alguém poderia ter falado isso dela?

                Seus caminhos continuaram se cruzando na pequena vila. “Acidentalmente” viam-se quase todos os dias porque ele sempre dava um jeito de estar por onde ela passasse. Ele queria saber mais sobre ela e aos poucos a recíproca passava a ser verdadeira. Certa tarde enquanto ela voltava de apanhar água no poço, ele a cumprimentou como de costume. E, como de costume, esperava não ter resposta. Mas foi surpreendido.

                - Boa tarde, moça.

                - A tarde seria boa... se houvesse alguém para me ajudar... a levar este balde... de água até minha casa, ela retrucou meio ofegante pelo peso que levava ladeira acima.

                - Eu te ajudo. Sua casa é longe?

 

                - Já não era sem tempo. Minha casa fica ali mais no alto.


Parodiando o Mestre + 2a parte da história

"Se alguém quer vir após mim, meu nick no Twitter é ivanoliveira71. Sorriso

As duas heranças - 2a parte

Foi nessa hora que meu irmão menor chegou. Eu o agarrei pelo braço e o tirei daquela balbúrdia. Ele começou a chorar e a me perguntar o que estava acontecendo, o que havia acontecido com papai. Nos meus primeiros minutos como homem da casa eu segurei a tristeza e a confusão, olhei bem dentro dos olhos dele e disse:

 

- Deus está cuidando de nós. Ele não vai nos abandonar.

 

Ele tentou correr para casa, mas eu o agarrei pela manga da camisa de linho grosso e puxei de volta. O puxão o assustou ainda mais. Ele caiu, olhou para mim e chorou. No meio do seu choro, me perguntou:

 

- Se Ele está cuidando de nós, por que deixou acontecer uma coisa ruim com o papai. Foi com o papai, não é? Aquelas pessoas estão na nossa casa por causa do papai, não estão?

 

- Não. Eles estão lá por causa da mamãe. E por nossa causa. Porque gostam de nós e querem nos ajudar. Queriam ajudar a trazer o papai de volta, mas nem eles podem fazer isso. Eu também queria que eles tivessem conseguido.

 

Nessa hora eu não consegui me segurar mais. Abracei forte meu irmãozinho e começamos a chorar juntos. Por muito tempo ficamos ali abraçados, chorando. As imagens de papai brincando com a gente, nos levando para passear, abraçando a mamãe passavam pela nossa cabeça como um filme interminável, que voltava sempre ao começo. As memórias não paravam. E quanto mais pensávamos que elas eram agora tudo o que tínhamos do nosso pai, mais queríamos lembrar outras coisas. Foi um longo abraço de conforto, de apoio, um longo abraço que nos lembrava que agora éramos só nós e a mamãe.

                Um de nossos vizinhos assistiu compadecido à cena. Quando percebeu que havíamos chorado bastante por aquele momento, aproximou-se de nós e também nos abraçou. Ele havia estado ali todo o tempo, mas nós estávamos ocupados demais com nossas lágrimas para enxergar quem quer que fosse perto de nós.

(cont no próximo post)

Meditando sobre nada

Ler é uma dádiva. Quando me lembro da quantidade de gente que mal consegue juntar as letras do próprio nome, agradeço a Deus a capacidade não só de juntar as letras, mas de tirar algum sentido do que leio.

Existem histórias que fazem com que a gente se sinta lá, vivo no meio dela. Quando leio certos trechos descritivos da Bíblia gosto de me imaginar no lugar de algum dos personagens, ou como um observador presente, porém invisível. E foi assim quando, há algumas semanas, me deparei com o trecho inicial de II Reis 4. Muita gente conhece este trecho como o do "milagre do azeite". Mas o papel que o azeite desempenha é o de mero instrumento da provisão de Deus para algo muito maior. Ele surge como resposta a duas perguntas, ambas muito cheias de significado:

- Como posso lhe ajudar?

- O que é que você tem em casa?

À segunda pergunta, uma resposta pronta saltou da boca daquela viúva. Não foi bem uma resposta pronta, mas uma resposta que havia sido aprontada, uma resposta que vinha sendo alimentada pela tristeza da perda. Uma resposta curta e contundente:

- Nada.

Essa história é sobre nada e o que ele significa. É uma história que, se estivéssemos lá, talvez a víssemos acontecendo assim:

"Duas heranças", por Ivan Oliveira. Baseada em fatos reais.

- Meu filho, acode aqui que teu pai está passando mal! Corre, filho!

                Aquela talvez tenha sido a cena mais chocante da minha infância. Eu tinha somente 12 anos quando minha mãe, com os olhos em lágrimas e o corpo desfalecido do meu pai nos braços, olhou para mim pedindo socorro. Eu era o homem da casa naquele instante. E continuaria a ser dali em diante.

 - Chame um dos vizinhos! Corre, filho, corre. Corre...

 Eu saí correndo sem saber exatamente para onde. Assim que cheguei à rua dei um esbarrão num homem muito bem vestido. Perguntei a ele onde conseguir ajuda, mas ele me ignorou, seguiu seu caminho. Eu continuei correndo até chegar à casa da vizinha mais próxima. Perguntei por seu marido ou se alguém podia ajudar. Ela viu nos meus olhos assustados que algo não estava bem. Chamou o marido e, no caminho, mais alguns vizinhos. Chegando de volta à minha casa, minha mãe soluçava e batia no corpo inerte de meu pai, tentando fazê-lo voltar.

Foi nessa hora que meu irmão menor chegou. Eu o agarrei pelo braço e o tirei daquela confusão. Ele começou a chorar e a me perguntar o que estava acontecendo, o que havia acontecido com papai. Nos meus primeiros minutos como homem da casa eu segurei a tristeza e a confusão, olhei bem dentro dos olhos dele e disse:

 - Deus está cuidando de nós. Ele não vai nos abandonar.

[continua nos próximos posts]


 

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